A carta em que Donald Trump comunica ao presidente Lula a imposição de uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros é ruim para diversos setores e para o país em geral, mas tende a ter um peso político negativo particular para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pré-candidato do Centrão à presidência em 2026.
Na carta, Trump comunica a imposição de tarifas por três motivos: o comércio entre os dois países não seria justo (apesar de os Estados Unidos terem superávit comercial com o Brasil), as medidas do Brasil contra as big techs e o que ele considera uma perseguição a Jair Bolsonaro. Por razões diversas, muitos países receberão cartas iguais, com o mesmo tom ameaçador de que não há saída senão ceder.
No ano passado, em um arroubo de demonstrar fidelidade a Jair Bolsonaro, Tarcísio posou com o boné vermelho do Maga, o movimento Make America Great Again (Torne a América Grande de Novo), associado a Trump. O ato pode lhe trazer tanto azar quanto daria colocar na cabeça um cocar indígena, prática associada no folclore político nacional a derrota eleitoral.
A foto com o boné torna Tarcísio de Freitas o político brasileiro simpático a Trump, o presidente americano que prejudica o Brasil, quer mandar no país, expulsa migrantes brasileiros algemados e impõe sanções que ameaçam empregos de brasileiros. Daqui para frente, Tarcísio poderá ser vendido como o candidato do maior inimigo do Brasil.
A carta de Trump dá ao presidente Lula o presente de poder fazer a defesa nacionalista, que historicamente tem potencial para melhorar popularidades de presidentes e impulsionar candidaturas. Estar do lado oposto não é confortável – e esta é hoje a posição de Tarcísio, devido ao boné e à obrigação de fidelidade a Bolsonaro.
Antes mesmo da carta desta quarta, Trump já era impopular no Brasil. Pesquisa da Genial/Quaest feita em abril mostrou que, desde a posse de Trump, a percepção positiva dos brasileiros sobre os Estados Unidos caiu de 58% para 44%, enquanto a negativa subiu de 24% para 41%. Trump em pessoa é rejeitado por 43% dos brasileiros.
Isso significa que Donald Trump, que poderia dar meia dúzia de votos a qualquer candidato brasileiro, passa agora a ser capaz de tirar milhares de votos de algum candidato associado a ele. Hoje, Tarcísio poderia ser taxado assim em uma campanha eleitoral.
É altamente improvável que esses números melhorem após a imposição das sanções comerciais. Dado que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, as tarifas vão a gerar problemas na economia, em especial para empresas exportadoras. Tarcísio é hoje o candidato do meio empresarial e governa o estado mais rico do país, cujo principal destino dos seus produtos é os Estados Unidos. Terá de lidar com um problema grande, numa situação politicamente delicada.
As tarifas tornam politicamente tóxica qualquer associação a Trump. Sintoma disso é que o ex-presidente Jair Bolsonaro postou nesta quarta-feira (9) a mensagem de Trump, mas apenas o trecho em seu apoio – omitiu a parte das tarifas. Bolsonaro é o único que se considera ajudado por Trump.
Leia a carta enviada por Donald Trump ao presidente Lula.

