O presidente Jair Bolsonaro gostou bastante da ideia do Centrão, em abril, de soltar dinheiro público na eleição. Nesta quinta-feira, ele anunciou que a Caixa vai renegociar dívidas de 4 milhões de pessoas físicas e 400 mil empresas. Os descontos podem chegar a 90%. As benesses são um filão que Bolsonaro explora sem olhar o amanhã.

O governo já decidiu antecipar o pagamento da parcela do Auxílio Brasil de novembro para antes de 30 de outubro, pagar um 13º a mulheres que recebem o auxílio e incluir mais 500 mil famílias no benefício antes da eleição.

Antes da campanha eleitoral, atitudes assim eram impensáveis para Bolsonaro. A busca pela virada na eleição mudou isso.

O resultado não apareceu no primeiro turno, mas dá alguns sinais agora. Na pesquisa Quaest divulgada nesta quinta, Lula aparece na frente com 54% dos votos válidos contra 46% do presidente. Mas alguns indicadores são favoráveis a Bolsonaro.

A avaliação positiva do governo melhorou no Nordeste (19% para 27%) e entre os mais pobres (24% para 28%). É na região que está a maior parte dos beneficiários do Auxílio Brasil. A avaliação positiva do governo em geral chegou a 35%, contra 38% da negativa, o melhor resultado da série.

Quando perguntados sobre economia, 74% dos eleitores acham que vai melhorar no futuro. Os que acham que a economia piorou de um ano para cá são 41% (eram 56% em janeiro); os que acham que melhorou são 34% (eram 12% em janeiro).

É provável isso que seja efeito da queda na inflação e da redução dos preços dos combustíveis. As duas coisas são artificiais e efêmeras, produto de jogadas combinadas de Bolsonaro com o presidente da Câmara, Arthur Lira, que trarão prejuízos futuros para a economia. Mas a sensação de melhora está aí.

A 24 dias do segundo turno, as medidas podem render mais votos a Bolsonaro. É com isso que conta sua campanha. Mas uma atração maciça de eleitores é improvável.

Gastar dinheiro público sem amarras rendeu algo a Bolsonaro, ainda mais por não haver o devido freio institucional, como havia com seus antecessores. Não há Ministério da Economia que o impeça de ampliar gastos em busca da reeleição. Mas os efeitos são inescapáveis em 2023. Se Bolsonaro vencer, terá de lidar com uma economia em frangalhos. Se perder, não terá valido a pena e terá delegado a Lula uma economia em frangalhos.