Estão cada vez mais alarmantes o ritmo e as perspectivas realistas de vacinação dos brasileiros. O risco de interrupção na aplicação de vacinas é real e iminente. Salvo um milagre, o Brasil não conseguirá imunizar todas as pessoas acima de 60 anos antes de julho.

No auge da pandemia, portanto, a maioria dos brasileiros dos grupos prioritários não estarão vacinados. Tudo graças à incompetência negacionista do governo de Jair Bolsonaro, que recusou parcerias estratégicas no ano passado, recusou doses da Pfizer e foi ao mercado com um semestre de atraso.

Hoje, o Brasil conta quase que exclusivamente com a Coronavac, produzida pelo Butantan com matéria-prima importada da China. As cerca de vinte milhões de doses que devem, segundo os cenário mais provável, ser distribuídas no país em março são do Butantan.

A Fiocruz enfrenta problemas técnicos e de dificuldade de acesso à matéria-prima importada para envasar a vacina da AstraZeneca. Pode até entregar doses, mas não em larga escala. No máximo entre dois ou três milhões de doses em março.

Inexiste perspectiva de que o Brasil obtenha outras vacinas nas próximas semanas. Na melhor das hipóteses, se houver importação de matéria-prima, a produção local (Butantan e Fiocruz) crescerá a ponto de não interromper, já em abril, o programa de vacinação.

Ainda num cenário otimista, o Covax entregará as 2,9 milhões de doses prometidas para março e a indiana Covaxin, sendo aprovada pela Anvisa (um enorme “se”), chegará em abril, com, no máximo, quatro milhões de doses.

Os números oficiais são trágicos. O Brasil tem 77 milhões de pessoas nos grupos prioritários. Delas, apenas cerca de 10 milhões já foram vacinadas.

As 67 milhões de pessoas restantes – novamente, sobretudo aqueles acima de 60 anos – terão que esperar, esperar e esperar.

Se o governo conseguir distribuir 20 milhões de doses neste mês, dez milhões dos 67 milhões de idosos receberão vacinas (são duas doses para cada pessoa). Ou seja: restarão 57 milhões sem vacinas. Ou 114 milhões de doses – algo, infelizmente, ainda muito distante, mesmo acreditando-se nos números oficiais.