Certa e precificada, a reeleição de Arthur Lira, do PP, à Presidência da Câmara é importante pelo placar elástico. Lira teve 464 votos de 513 deputados, a maior votação da história. Esta vantagem é resultado de dois anos de administração do orçamento secreto e dá a dimensão da dificuldade que o governo Lula terá para negociar com ele.
Em 2021, Lira foi eleito com 302 votos. De lá para cá, ganhou mais 162 votos, ou seja: subiu de 59% para 91% dos votos dos colegas. Isso não teria sido possível sem o poder de distribuir bilhões de reais do orçamento sem transparência.
Com tantos votos, Lira pode dizer que tem praticamente toda a Câmara a seu lado. Assim, cobrará mais caro do governo – seja em forma de cargos agora, seja em mais cargos ou vantagens a cada votação importante ao longo dos próximos dois anos. O governo precisará de Lira mais do que ele precisará do governo.
Lira ajudará em projetos importantes, como a reforma tributária e o novo arcabouço fiscal. Mas certamente eles terão trechos de seu interesse e do Centrão. Lira certamente não ajudará o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a aprovar seu plano de mudar as votações do Carf para devolver a vantagem ao governo em caso de empate nas votações sobre disputas fiscais.
Nem todos os 464 deputados são fiéis ao presidente da Câmara. Parte deles, governista, votou em Lira para não criar problemas maiores para o governo Lula. Mas quem tem o orçamento secreto nas mãos, ainda que reformado por força do Supremo Tribunal Federal, pode muito em Brasília.

