Governar é saber conviver com imprevistos – em geral, desfavoráveis. A crise em bancos nos Estados Unidos e na Europa se encaixa nesta categoria de eventos com os quais o governo Lula tem de conviver às vésperas de divulgar o novo arcabouço fiscal – o que, a preço de hoje, será seu mais importante passo na economia.
A crise piora o cenário no mercado financeiro internacional, que já não era dos melhores com as altas de juros para controlar a inflação nos países ricos. Não é agradável dar o principal passo da gestão em um clima de insegurança, onde tudo pode virar para pior em minutos.
A nova âncora fiscal pode ajudar o Brasil a aparecer menos mal neste cenário em que predomina o pessimismo. Hoje, o Brasil é um gastador com uma dívida pública em crescimento, péssima característica para uma nação emergente.
Haddad tem o projeto pronto e gostaria de lançá-lo já, mas Lula prefere ouvir mais gente e só divulgar em abril. O que Haddad apresentará não será uma regra tão dura e simples quanto o teto de gastos, em vigor desde 2017. Mas, caso seja leniente demais com o controle da dívida pública, a ideia não será bem recebida pelo mercado, o que pode prejudicar a avaliação do Brasil num momento delicado.
Na segunda e nesta terça, Haddad teve de passar pelo constrangimento de participar de uma arapuca organizada por seu adversário, Aloizio Mercadante, o seminário no BNDES no qual predominou uma visão econômica pró-gasto, feita sob medida para constranger Haddad.
Tudo bem. Faz parte das tarefas de um ministro do PT apanhar mais do PT do que de toda a oposição unida. Haddad sabe disso. E o seminário é nada perto da crise.
O trabalho de Haddad e sua equipe poderá ser recebido com mais condescendência justamente por coisas como o seminário. Os mais conscientes no mercado sabem que a alternativa a Haddad é pior, algo mais próximo do que foi a economia no governo Dilma.
Quem conhece sabe que, depois de passar por Lula e pelas pessoas que ele prefere ouvir, a proposta de novo arcabouço fiscal da equipe de Haddad ainda será examinada por um Congresso ávido por emendas parlamentares e obras – ou seja, gastos. Não há chance de o projeto não ser retalhado.

