Em meio ao nervosismo no mercado financeiro e a um movimento de descrença na política econômica aparente pelo enfraquecimento do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o presidente Lula expôs sua estratégia para lidar com pressões por corte de gastos. Sua ideia é contrapor gastos sociais a gastos com subsídios, pobres versus ricos.
Em entrevista à CBN, Lula admitiu que nos próximos 20 dias receberá dados discutirá com Haddad e com a Ministra do Planejamento, Simone Tebet, a necessidade de cortes de gastos. Mas adiantou que prefere cortar subsídios a mexer em despesas sociais.
“O que tem me preocupado é que as mesmas pessoas que falam que é preciso parar de gastar são as mesmas pessoas que têm R$ 540 bilhões de isenção, desoneração de folha de pagamento, isenção fiscal – ou seja, são os ricos que se apoderam de uma parte do orçamento do país. E eles se queixam do que você está gastando com o povo pobre”, disse Lula.
Contrapor pobres e ricos é um clássico da estratégia de Lula. Colocar-se como o defensor dos pobres é um papel conhecido do presidente. O que Lula fez foi falar num tema espinhoso para ele, fazendo um aceno à sua base de eleitores fieis.
A diferença no caso atual é que atacar subsídios, isenções, dinheiro que o governo deixa de arrecadar, é um tema oportuno num momento em que o país precisa mudar a política fiscal e cortar despesas.
O governo federal deixa de arrecadar cerca de meio trilhão de reais por ano por conceder isenções fiscais, desonerações e outros benefícios a determinados grupos econômicos que têm maior poder de influência no Congresso e no próprio governo.
O arcabouço fiscal foi desenhado pela gestão do ministro Fernando Haddad para substituir o teto de gastos de uma forma que Lula e o PT tolerassem. Por isso, é mais focado na busca por receitas – algo que o governo não controla – do que em despesas – algo que o governo pode controlar se quiser.
A questão é que a busca por receitas novas se esgotou e ainda falta dinheiro para atingir a meta de déficit zero este ano em 2025 – algo necessário para controlar a dívida pública e resgatar a credibilidade do Brasil para atrair investimentos e não pagar juros mais altos no mercado financeiro.
Após meses, os ministros Haddad e Tebet conseguiram convencer Lula da necessidade de reduzir despesas. Apesar da chiadeira do PT em nota oficial divulgada na segunda-feira defendendo gastos, os cortes serão feitos nos próximos meses.
Lula acerta ao expor que parte dos agentes que pedem cortes de gastos ao mesmo tempo que se beneficiam da gastança. Joga a responsabilidade para o outro lado do muro, que se esconde na falta de transparência dos benefícios. Faltam também estudos mais sérios que exponham a efetividade destes subsídios para a economia brasileira.
O fato de Lula tratar de cortes de gastos é uma boa notícia para a economia. A questão é que colocar todo o peso apenas nas isenções e subsídios tira do governo a responsabilidade de rever outros gastos, como a previdência dos militares ou a reforma administrativa.

