A União Europeia impõe sanções à Rússia desde 2014, quando Vladimir Putin tomou a Crimeia. Após a invasão injustificada da Ucrânia, as punições aumentaram. Bens de políticos e empresários foram sequestrados, o país foi desconectado do sistema bancário global, veículos de imprensa do país foram banidos e até as compras de gás foram reduzidas – com possibilidade de serem zeradas.

Mas o dinheiro sempre fala mais alto; tanto que a Rússia lucrou 4 trilhões de dólares nos últimos 20 anos com a venda de gás e combustíveis à Europa ocidental. E a relação comercial não parou nessas commodities. De 2014 a 2020, França e Alemanha continuaram fornecendo armas ao regime de Putin – o que transforma em cinismo os pedidos da Rússia para que a Otan interrompa o fornecimento de equipamentos militares à Ucrânia.

Juntos, os líderes (informais, pela força política e econômica) da União Europeia, venderam 277 milhões euros em armas e tecnologia militar aos russos até 2020- apesar de o bloco embargar vendas de armas e outros equipamentos militares à Rússia desde 2014. Além de franceses e alemães, outros oito países do bloco também fizeram negócios mortais com Putin.

Com isso, os 277 milhões saltam para 346 milhões de euros quando somadas as operações de Áustria, Bulgária, República Tcheca, Croácia, Finlândia, Eslováquia e Espanha. De lá para cá, a Finlândia (por temer as ambições territoriais russas) pediu para entrar na Otan; já Bulgária e Eslováquia cogitaram enviar caças MiG-29 de fabricação soviética para que os ucranianos enfrentem a Rússia.

Rússia não está só

Apesar do aumento da intensidade das sanções, a economia russa não entrou em colapsou como previsto – assim como a Rússia não tomou Kiev em 72 horas, como previu o ocidente. O rublo despencou, mas as trocas comerciais ainda acontecem. E a China tem papel importante nisso, tanto de suporte a Putin quanto se colocando como muralha contra pressões diplomáticas de EUA e UE.

Só que o apoio à Rússia vai além do país vizinho, e também tem relação com a venda de armamentos. A recente votação na ONU que decidiu pela exclusão dos russos do Conselho de Direitos Humanos é um bom mapa da influência das armas de Putin pelo mundo. Foram 93 votos favoráveis à expulsão russa, 24 contrários e 58 abstenções.

O resultado mostrou que 82 países concordam ou fecham os olhos para os atos de Putin na Ucrânia – como estuprar refugiadas, lançar mísseis em pessoas que andam pelas zonas de conflito, matar jornalistas, bombardear maternidades e estações de trem, além de pregar animais domésticos pelas patas em madeiras e depois estripá-los.

Muitos são clientes assíduos do mercado da morte russo. Um ótimo exemplo foi o fato de Índia e Paquistão – inimigos históricos – votarem da mesma forma na sessão. Ambos se mantiveram neutros, assim como o Egito (que recebe muita ajuda russa desde a primavera árabe) e os Emirados Árabes Unidos.

Outros preferiram escancarar o apoio à carnificina. É o caso da Síria, porque Bashar al-Assad só continua no poder graças aos seguidos bombardeios indiscriminados da força aérea da Rússia no país, e o Irã, que usa o governo de Putin para barganhar melhores condições no acordo nuclear firmado com EUA e Europa (mas que sempre é renegociado).

Por fim, o Brasil juntou-se a esse grupo ao se abster na votação. O governo Jair Bolsonaro ignora a guerra e abandona brasileiros aos mísseis em troca de fertilizantes e de um discurso político conservador.