A declaração de que deixará de cuidar das redes sociais de Jair Bolsonaro é fruto do sentimento de Carlos, seu zero dois, de que é pouco —ou nada— valorizado pelo pai apesar de sua lealdade e abnegação nas últimas duas décadas, segundo fontes próximas à família.

O estopim para os tuítes de Carlos com reclamações e ameaças no domingo foi a especulação de Bolsonaro com aliados sobre seu futuro político. No entender de Carlos, o pai leva em consideração as decisões políticas dos irmãos Flávio e Eduardo, mas não as suas vontades.

Especificamente, o zero dois não gostou de saber que Jair Bolsonaro avalia lançar Flávio para a prefeitura do Rio de Janeiro no ano que vem – e, em caso da derrota do senador, guardar seu lugar na disputa ao Senado em 2026.

Carlos sequer foi consultado, dizem interlocutores da família, se gostaria de disputar outro cargo eletivo, como a prefeitura em 2024 ou o Senado em 2026, depois de 20 anos como vereador.

Segundo um amigo do filho do ex-presidente, Carlos nem tem ambições políticas como ser presidente da República, como Jair já especulou sobre o futuro de Eduardo Bolsonaro. Mas o magoa o fato de sequer ser considerado pelo pai.

A ladainha de Carlos é sempre a mesma. Foi ele quem disputou contra a mãe o mandato de vereador do Rio de Janeiro em 2000 quando Jair quis Rogéria fora do grupo político-familiar. Carlos tinha 17 anos. Flávio Bolsonaro, à época com 18, se recusou a concorrer com a mãe.

Foi ele quem traçou a estratégia digital do pai, quando ninguém na família via nas redes sociais caminho para fazer Jair Bolsonaro chegar à Presidência da República. Lá em 2014 Carlos compreendeu quais rumos dar na estratégia de comunicação do pai.

Também foi ele quem ficou com Bolsonaro durante todo o processo de recuperação da facada no hospital. Ele acha que sempre sujeitou as suas vontades às necessidades do pai.

Ao dizer que vai sair do controle das redes sociais de Jair Bolsonaro, diz a fonte, Carlos quer chamar a atenção do pai, sobretudo. Há, mesmo entre os mais próximos, quem duvide que o vereador se abstenha de tentar influenciar o destino político de Bolsonaro, embora discorde da permanência do ex-presidente no PL.

Mas ele tem sido aconselhado no âmbito familiar a deixar a política de lado, ao menos por um tempo, para cuidar da própria vida.

No PL, apurou o Bastidor, duas palavras resumem as principais reações de setores menos bolsonaristas ao anúncio de Carlos: desconfiança e alívio.

Desconfiança porque não é a primeira vez que o zero dois expõe publicamente a insatisfação com decisões do pai com os irmãos. A ala não bolsonarista do PL vê com cautela a ameaça de afastamento, mas torce para que aconteça. Muitos integrantes do partido atribuem a Carlos e à comunicação errática a reeleição de Bolsonaro.