Faltando pouco mais de uma semana para a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, os movimentos da extrema-direita começam a se sentir órfãos, seja de liderança ou de representação. A nova tese distribuída em algumas dessas comunidades aponta que o Partido Liberal, ao qual Jair Bolsonaro é filiado, teria traído o atual presidente.

A perda de força dos movimentos golpistas é demonstrada com a redução dos acampamentos em frente aos quartéis. Nas últimas semanas, cada vez menos pessoas têm participado de atos contestando o resultado das eleições. O Bastidor mostrou que um dos principais focos de manifestação, em Brasília, começou a ser desmontado.

Pesquisa divulgada pelo DataFolha, na quarta-feira (21), aponta que 75% dos brasileiros são contra os protestos antidemocráticos realizados por apoiadores de Jair Bolsonaro. Entre os que votaram pela continuidade do atual governo, ao menos a metade não apoia os protestos.

O Bastidor também mostrou que há muita divisão entre os grupos. Com isso, teorias da conspiração, baseadas em interpretações quase sempre equivocadas de atos de Bolsonaro são vistas como motivos para se comemorar um golpe que não veio e, quase com certeza, não virá.

É nesse cenário que prospera o novo discurso contra o PL. A legenda, comandada por Valdemar da Costa Neto, até tentou demonstrar apoio ao presidente derrotado, inventando um processo sem pé nem cabeça para contestar o resultado das urnas. Falhou miseravelmente e agora terá que pagar quase R$ 23 milhões em multa, após ser condenado por litigância de má-fé.

Na tese em que atacam o partido, os militantes de extrema-direita dizem que a legenda ignora a ação kamikaze de Valdemar e afirmam que o PL aceitou a derrota nas urnas passivamente.

“Os caciques do partido, não querem comprar a briga até o fim; há pouco interesse em resolver a crise institucional. O ambiente dentro do PL é cínico, exceto aqueles que entraram para fortalecer a base do Bolsonaro”, diz trecho de uma mensagem que circula por esses grupos. 

Segundo eles, Bolsonaro está sozinho, apesar de ter o suposto apoio dos militares na luta contra a esquerda. “O elo mais forte neste momento é: Jair Bolsonaro, o povo e Deus”, diz outro trecho.

A reclamação ganhou mais força depois que congressistas filiados ao partido votaram a favor da PEC da Transição, aprovada nesta semana. Entre os que disseram “sim” à proposta, que facilitará a Lula cumprir compromissos de campanha”, estava Flávia Arruda, presidente da legenda no Distrito Federal.

Em geral, essas mensagens têm sido distribuídas em grupos no Telegram, alguns com milhares de seguidores. Nessas comunidades, é comum que apenas os administradores possam postar textos, quase sempre sem espaço para comentários dos seguidores, o que acaba impedindo qualquer tipo de contestação minimamente razoável de quem acompanha os conteúdos.

Nem todas essas comunidades são ligadas a Bolsonaro ou aos familiares. Algumas são tão radicais que defendem por vezes a intervenção militar sem a presença do atual presidente. Parte desses discursos também são encontrados em outras redes populares, como o Twitter, TikTok WhatsApp e Facebook.

A falta de uma liderança forte nessas comunidades demonstra que possivelmente haverá grande pulverização dos discursos extremistas, depois que Bolsonaro deixar o Planalto, no dia 1º de janeiro. Aos eleitos por esses grupos ficará o desafio de aglutinar novamente os discursos e pautas, sob o risco de a extrema-direita – assim como a extrema-esquerda – voltar à irrelevância que a civilização moderna exige.