O presidente eleito Lula fez nesta quinta-feira seu pior discurso desde a vitória sobre Jair Bolsonaro. Diante de parlamentares no prédio ocupado pela equipe de transição, em Brasília, Lula disse sobre economia tudo que o mercado financeiro não gostaria de ouvir.

Lula deu sinais de que vai priorizar aumento do gasto público em detrimento da retomada do controle sobre as despesas. Foi um ótimo discurso para parlamentares, mas péssimo para quem entende de economia. O descontrole nas despesas vem desde 2020 e coloca o país em perigo pela expansão da dívida pública, em um cenário internacional dos mais hostis. Por isso, o dólar subiu e a bolsa recuou, aquele comportamento básico de pessimismo.  

Para contribuir um pouco contra Lula, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, anunciou que o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega fará parte da equipe na área de planejamento e gestão.

Tudo isso somado fica a impressão que Lula opta por seguir o caminho trilhado no governo Dilma Rousseff, não o do seu governo – bem avaliado do ponto de vista econômico. O governo Dilma é considerado um desastre na área econômica – comparável à gestão de Paulo Guedes – por suas premissas de aumento do gasto público e descontrole fiscal.

O mercado financeiro não tem mandato para governar. Mas é uma questão prática: o mercado pode dificultar o cenário para Lula. Subidas no câmbio, nos juros futuros e bolsa em queda afastam investidores e fazem mal aos negócios. Também afetam a vida comum. Turbulências alimentam a inflação, podem gerar necessidade de juros mais altos, que reduzem perspectivas de crescimento. No final, a conta chega à popularidade.

Lula já tem um cenário político bastante complicado, com oposição bolsonarista no Congresso, a necessidade de negociar a PEC da Transição e manifestantes pedindo golpe militar na frente de quartéis. Não precisa de uma crise com o mercado financeiro também. As palavras erradas podem dar à oposição bolsonarista a chance de aproveitar uma onda de má vontade financeira para desgastar o futuro governo numa área onde ele já é minoria.