A relação entre Jair Bolsonaro e Roberto Jefferson era tensa. Entre eles, sobravam cobranças, desconfianças e mágoas. A conveniência política, no entanto, pairava acima das reclamações mútuas – até a prisão do ex-deputado ontem. Antes, Bolsonaro se beneficiava da maneira como Jefferson engajava as franjas mais radicais de sua base e, não menos relevante, lucrava com o apoio do PTB ao seu projeto de reeleição. Jefferson, por sua vez, encontrara no bolsonarismo um abrigo ideológico para os últimos momentos de sua carreira política.

Foram muitas as vezes em que chegaram aos seus ouvidos do presidente, com alguma variação entre as versões, conversas em que o aliado dizia a interlocutores que “alguém precisava levantar o tom” e que “Bolsonaro falava muito e agia pouco”.

As inconfidências do presidente do PTB foram minando a confiança do presidente.

Logo em que a notícia chegou ao presidente de que Alexandre de Moraes mandara prender Jefferson, a campanha pediu-lhe que se afastasse. Apoiadores ideológicos, porém, pediram que ele, como fez com Daniel Silveira, concedesse ao aliado indulto se necessário. Bolsonaro silenciou a respeito.

Carlos Bolsonaro, normalmente alinhado à ala ideológica, não vê em Jefferson um aliado como Daniel Silveira. Concorda com o pai sobre o risco de uma insurgência. E discordara de qualquer gesto de deferência ao presidente do PTB.

Bolsonaro não se constrange em abandonar um aliado para trás. Daí para chamá-lo de bandido foi um pulo.

O distanciamento entre os dois não se deu por discordância de método de Roberto Jefferson, que já fez ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal e adora desrespeitar as ordens judiciais publicamente.

O distanciamento ocorreu porque na cabeça do presidente, com sua mania conspiratória, o aliado preparava algum tipo de golpe.

Uma coisa é se beneficiar do discurso radical de Roberto Jefferson. Outra coisa é lhe estender as mãos, algo que o chefe do PTB esperava há algum tempo. E reclamava: só promessas.

Jefferson, por sua vez, esperava maior deferência de Bolsonaro —nunca veio. Vangloriou-se de colocar o padre na disputa eleitoral para ajudar o presidente e por sempre defendê-lo quando entendia que Bolsonaro era atacado pelo STF.

Reclamou, segundo seus aliados, de passarem batidas suas manifestações em defesa do governo e chegou a dizer que recebeu mais respeito durante o governo de Michel Temer do que no de Bolsonaro.

Ontem mesmo, um interlocutor de Jefferson alertou o presidente para o risco Roberto Jefferson e o aconselhou , passada a eleição, a não deixar o “amigo” para trás. Lembrou que foi o chefe do PTB quem deu início às denúncias do mensalão depois de se sentir igualmente desprestigiado e prejudicado no esquema de corrupção que comprava votos no Congresso durante o primeiro governo de Lula.

Não foi uma ameaça, disse ao Bastidor o mesmo interlocutor: “Foi uma lembrança”.