Até esta segunda, dia 29 de novembro, não há sequer uma morte confirmada no mundo em razão da ômicron, a variante do coronavírus identificada na África do Sul. Não existe registro de que a ômicron tenha se alastrado em outros países.

Ainda é cedo para saber se a ômicron pode provocar formas mais graves da doença, comparada às variantes dominantes. Nem se ela tende a ser mais transmissível. A não ser que a ômicron se revele um demônio biológico inédito, prevalece a razoável expectativa, fundamentada na ciência e na própria experiência da pandemia, de que pessoas vacinadas com imunizantes eficientes terão boa proteção contra a nova variante.

As vacinas atuais até podem – podem, ainda não sabemos – ser menos eficientes contra a ômicron. Ainda assim, é altamente provável que elas diminuam substancialmente as chances de que alguém contraia uma forma grave da doença. Sobretudo aqueles que estiverem complemente imunizados e já tenham tomado a dose de reforço. Para quem está com as doses em dia e não tem um organismo debilitado, portanto, nada indica, por ora, que a ômicron represente um perigo sério.

Apesar dessas ponderações relevantes, a Organização Mundial de Saúde soltou um alerta sobre o “alto risco” global representado pela nova variante, após classificá-la como “preocupante”. A postura da OMS nos últimos dias ajudou a provocar reações políticas desproporcionais e manchetes sensacionalistas, como se o mundo estivesse diante de um novo vírus e à beira de mais uma pandemia. Logo a preocupação justificada cedeu lugar ao pânico irracional. Estará perdoado quem pensar que a pandemia recomeçou.

A mensagem alarmante da OMS reflete uma análise de risco excessivamente cautelosa da entidade. Os técnicos preferiram acolher as incertezas inerentes à ômicron no pior cenário possível – aquele em que a variante seja mais transmissível e mais letal, e no qual as vacinas percam muita, senão toda, eficácia. Não só as vacinas como a resposta do sistema imune de quem já teve a doença. Não há qualquer razoabilidade na opção por esse cenário.

O jeito que a OMS, mas não somente a OMS, comunica a população sobre a pandemia talvez ponha ênfase excessiva na transmissão da doença – no número de casos, em detrimento da gravidade ou não deles. Após quase dois anos, é improvável que essa seja a melhor estratégia para compreender a evolução do vírus e o modo como podemos conviver com ele, especialmente entre os países que conseguiram vacinar parte expressiva de suas populações.

Apesar de Jair Bolsonaro, o Brasil está entrando nessa categoria, com 62% de sua população vacinada com ao menos duas doses e um plano de reforço em andamento. Os números de mortes, hospitalizações e casos seguem caindo – finalmente.

O surgimento de variantes como a ômicron é uma oportunidade para que governos acelerem as campanhas de vacinação, avancem nas doses de reforço com imunizantes de alta qualidade – e insistam publicamente na relevância da imunização de todos.

No plano internacional, exige a cooperação que teima em inexistir, pela qual países pobres tenham acesso a vacinas de qualidade. Sem esse esforço intermediado pela OMS e pelo consórcio Covax, o vírus provavelmente seguirá seu padrão preocupante de mutações por muito tempo.

Após dois anos de pandemia, todos sabemos – ou deveríamos saber – o quão traiçoeiro e perigoso é o vírus. Não precisamos de alertas desarrazoados e exagerados para enfrentá-lo.