Diante do avanço da ômicron, especialistas e médicos cobram do governo e da Anvisa que crianças também sejam vacinadas com a Coronavac. Até agora, há autorização sanitária apenas para o uso do imunizante da Pfizer específico para pessoas entre 5 e 11 anos. Após hesitar por três semanas, o Ministério da Saúde anunciou ontem que começará neste mês a vacinação dessa faixa etária.

A opção pela Coronavac para acelerar a imunização dos mais jovens faz sentido. Há consenso na comunidade científica brasileira acerca da segurança do imunizante, embora persistam dúvidas a respeito da efetividade dele, especialmente no caso de pessoas imunodeprimidas.

O problema, porém, é que o Instituto Butantan ainda não entregou à Anvisa dados críticos sobre a segurança e a eficácia da Coronavac entre crianças de 3 a 17 anos. O Butantan pediu o uso emergencial à agência em 15 de dezembro, foi cobrado imediatamente e deu resposta insuficiente duas semanas depois.

Repete-se, em síntese, o que aconteceu há um ano, quando o Butantan obteve a autorização para uso emergencial da Coronavac em adultos. Foi um processo com muita pressão política e escassez de transparência, moldado pela urgência daquele momento. Tanto que o Instituto demorou meses para fornecer dados críticos e, ao cabo, não pediu o registro definitivo da vacina.

Sem o registro, a análise da Anvisa sobre a versão infantil da Coronavac torna-se mais difícil. Ademais, a ausência do registro exige legalmente que os diretores se reúnam para decidir sobre a autorização ou não da Coronavac para crianças.

Ainda não há data para essa reunião. Técnicos da Anvisa, com a ajuda de especialistas, estão em diálogo com o Butantan para tentar obter os dados mínimos, de modo que uma análise de custo e benefício seja possível. Houve reunião hoje.

Não falta boa vontade por parte dos servidores e diretores da Anvisa. Mas o Butantan precisa colaborar para que a agência consiga tomar uma decisão. Faltam, sobretudo, dados e esclarecimentos sobre a eficácia do imunizante.

Caso a Anvisa venha a aprovar o uso para crianças, há um obstáculo seguinte: o Ministério da Saúde. Não está nos planos da pasta incluir a Coronavac na imunização de crianças e adolescentes. Se sobrevier a autorização da agência, é altamente provável que a ojeriza política de Bolsonaro a Doria, o pai político da Coronavac, pese numa avaliação que deveria ser técnica.