As derrotas do governo no Congresso ontem, em especial nos casos da saidinha de presos, fake news e armas, já eram tratadas como certas pela bancada do PT e pelo Palácio do Planalto. O presidente Lula já estava informado e, quando foi para uma reunião com Arthur Lira na tarde de terça-feira (29), só tratou do que ainda havia margem para negociação: o PL do Mover, que foi aprovado com um jabuti que taxa compras internacionais de até 50 dólares.
A conversa com o presidente da Câmara não foi em tom de discordância. Lula concorda com os argumentos do deputado e dos empresários brasileiros, mas pediu mais tempo para formular uma solução que aliviasse a imagem do governo nas críticas que iria receber após a aprovação. Lira, que havia assumido um compromisso com representantes do varejo, insistiu para a votação ser ontem. Lula se deu por vencido e ordenou que o PT se posicionasse favoravelmente.
O diagnóstico de parlamentares da base é que, em questões ideológicas, o governo está fadado ao fracasso no Congresso. Não há correlação de forças e toda vez que a gestão petista enfrentar temas caros à direita será derrotado, de acordo com avaliações feitas em um grupo de Whatsapp de deputados do PT. Nesses casos, nem a liberação de emendas seria suficiente, já que boa parte é impositiva.
As derrotas de ontem, que já eram esperadas, serviram de combustível para aliados pressionarem por mudanças na articulação política e nos ministérios. Um dos principais alvos, como mostrou o Bastidor no início do mês, é Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso. Falta ao senador, segundo parlamentares, interlocução com deputados e senadores da oposição e da base.
Os revezes também fizeram surgir debates internos sobre como enfrentar o bolsonarismo no Congresso e nas ruas. As sugestões são vagas e se concentram no discurso em defesa da democracia.
Com esse cenário, Lula optou em avalizar a aprovação do PL do Mover, ficar ao lado de Lira e evitar acumular novas derrotas ao longo do ano.

