Diplomatas e empresários que trabalham junto ao regime chinês para acelerar a exportação de insumos farmacêuticos ativos ao Brasil afirmam, sob reserva, que o atraso na entrega dos IFAs deve-se a aparentes dificuldades logísticas da Sinovac, empresa parceira do Butantan na produção da Coronavac.

Diante da postura geopolítica da China, é possível que o regime esteja travando a exportação. Por óbvio, os chineses rechaçam essa suspeita e dizem que se trata de um problema da Sinovac.

As fontes que participam das negociações também dizem que as frequentes declarações de Jair Bolsonaro contra os chineses certamente não colaboram nas tratativas. Contudo, estão longe de ser um fator de peso, como alega reiteradamente o Butantan e o governador João Doria.

“O fato é que a Sinovac não está honrando o cronograma contratual de entrega dos IFAs”, diz um diplomata a par da situação. “Talvez o governo chinês esteja atrapalhando, mas, ao que sabemos, trata-se de uma conjectura.”

Embora o comportamento belicoso e negacionista de Bolsonaro seja danoso, cria, ao mesmo tempo, uma justificativa política conveniente para eximir a Sinovac de suas responsabilidades contratuais. Permite, ainda, normalizar um comportamento inaceitável do regime chinês, caso Doria tenha razão: impedir que milhares de vidas sejam salvas por causa da língua de Bolsonaro.

A Sinovac precisa entregar imediatamente cerca de dez mil litros de IFA ao Brasil. Enquanto o insumo não chegar, a produção do Butantan seguirá paralisada. A Sinovac já atrasou entregas no Brasil, no México, na Turquia e no Chile, entre outros países.

Diante da demanda global e das dificuldades logísticas de uma emergência sanitária, atrasos na entrega de IFAs e vacinas são, infelizmente, comuns – e não se restringem a empresas chinesas. Esse problema esperado torna-se mais grave, porém, quando é tratado sem transparência e manobrado como arma política entre atores domésticos.