A recente aprovação da Anvisa para que a Fiocruz possa produzir no Brasil o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para a produção 100% nacional da vacina da AstraZeneca pode servir mais para o país melhorar a imagem no cenário internacional do que reduzir as infecções por coronavírus no Brasil. 

Isso acontece porque o Plano Nacional de Operacionalização (PNO) reduziu o peso desse imunizante no rol de ferramentas para evitar novos contágios da covid-19. Sendo assim, a produção nacional poderia servir para atender demandas de doação de doses a outros países.

A última revisão do PNO disponível no site do Ministério da Saúde foi publicada em 8 de outubro do ano passado. O texto aponta as diretrizes que o país passou a adotar a partir de então para tentar combater a doença, que já vitimou quase 620 mil pessoas no Brasil.

Entre as medidas, estava a adoção da terceira dose, para ampliar a imunidade dos brasileiros que receberam qualquer um dos imunizantes disponíveis até então: AstraZeneca, CoronaVac, Janssen e Pfizer.

De acordo com o PNO, a terceira dose deve ser aplicada preferencialmente com vacinas do tipo RNA mensageiro. Das quatro opções liberadas pela Anvisa e disponíveis no Brasil, apenas o imunizante da Pfizer conta com essa tecnologia. A vacina da AstraZeneca e a da Janssen são colocadas como opções de reserva, enquanto a CoronaVac não é considerada.

O contrato firmado com o laboratório anglo-sueco, de R$ 1,3 bilhão previa a transferência de tecnologia ao Brasil e a entrega de 120 milhões de doses, considerando as que usariam o IFA importado e as feitas totalmente em território nacional. Os termos também preveem a opção de compra de mais 60 milhões de doses.

Marcelo Queiroga defende que o país seja autossuficiente na produção de imunizantes. A pasta diz que as análises sobre a eficácia das vacinas e eventuais novas doses de reforço ainda são recentes. Caso a vacina da AstraZeneca seja novamente considerada como relevante para proteger a população local, ficará mais fácil fazer novas doses, mesmo que seja necessário um contrato adicional, se o país utilizar todas as que tem direito.

Do ponto de vista científico, o início da produção nacional do IFA representa avanço importante. Segundo a Fiocruz, esse tipo de transferência de tecnologia pode levar até 10 anos para ser completado, mas o Brasil conseguiu realizar isso em apenas 10 meses. 

O laboratório estatal diz que pretende entregar nas próximas semanas 21 milhões de doses feitas totalmente no Brasil ao governo federal. Todas fazem parte do contrato original. Com relação ao uso do IFA para eventual produção de outras vacinas, a Fiocruz diz que não isso é possível, por restrições contratuais.